O PSD do Algarve não interiorizou muito bem o que lhe aconteceu, ou seja, a verdadeira hemorragia de votos para o CDS que lhe retirou um quarto mandato. Foi um CDS anti-regionalização que beneficiou desse esvaimento, compensado pela apreciável transferência de votos da área socialista, sustendo tais votos o que poderia ter sido uma derrocada. E foi assim que o PSD do Algarve fechou a sua conta-corrente do sufrágio com saldo positivo mas com amargos de boca – perto de 14 mil votos mais e, vá lá, mais 1,6 % que em 2005, votos que podem bater em voo porque não são garantidamente fidelizáveis. Significa isto que, não fosse a evidente penalização sofrida pelo PS, também a penalização do PSD evidente ficaria. E não adianta atirar pedras para o telhado vizinho quando se possui telhado do mesmo material penalizador.
Nestas circunstâncias, José Mendes Bota teria que ser comedido, não excedendo grandemente a observação de que o PSD «obteve um resultado positivo» - foi apenas por contabilidade e não no plano estritamente político, pelo que «o paradoxo», termo usado por Mendes Bota olhando para o telhado do vizinho competidor, foi tão paradoxo para o PS que, mesmo com a consciência penalizada, contava com pelo menos quatro mandatos e ficou com três, como para o PSD que ganhando mais um mandato perdeu outro.
Explicação para isto? Logo no primeiro comunicado oficial da estrutura que dirige, José Mendes Bota reconheceu que «poderia ter ido mais longe, não fossem as circunstâncias que são do conhecimento público, e das quais o PSD/Algarve não foi responsável».
Mas que «circunstâncias» serão essas pelas quais o PSD/Algarve pode afirmar que «não foi responsável»? José Mendes Bota não as descreve, isentando-se. Optou por um procedimento equiparável ao de Miguel Freitas ter este descarregado os erros da sua gestão partidária para a governação e para Sócrates convertido em pára-raios pelos seus sequazes mal-sucedidos, e, para efeitos de catarse interna, com figura então homóloga no PSD que é a líder nacional, Manuela Ferreira Leite que, além de atrir raios, teve o triste condão de provocar tempestades. Uma destas tempestades foi a das listas.
Não sei se uma lista, tal como no formato inicial, encabeçada por José Mendes Bota conseguiria evitar a hemorragia para o CDS, já que ao eleitorado subtraído do PS ter-lhe-á sido indiferente que o cabeça de lista fosse ou não José Mendes Bota, fosse ou não Jorge Bacelar Gouveia, fosse até Manuel Pintosque Serapião Garcia que ninguém conhece porque não existe nem sequer é fantasma nos cadernos eleitorais do Cachopo. É essa a reflexão que o PSD/Algarve pode fazer e deveria fazer: o seu eleitorado trânsfuga o CDS eclipsou-se para o CDS devido ao simulacro de vida algarvia feito por Jorge Bacelar Gouveia determinando a secundarização de José Mendes Bota? Ou terá sido, juntamente com isso ou sem isso, uma penalização a Manuela Ferreira Leite, sabendo tais eleitores algozes que sacrificariam também o partido e, sobretudo, que retirariam força política a José Mendes Bota, pois a força política de Jorge Bacelar Gouveia vem de outro lado e o passeio ao Algarve foi uma outorga?
Como na manipulação de um caleidoscópio, as perguntas no PSD variam com o movimento, mas haverá uma que será difícil não permanecer no visor: é que, apesar da actividade, empenho e dinamismo inegável de José Mendes Bota, como deputado na legislatura que termina e como dirigente regional, o PSD/Algarve não tem um projecto político profundo, uma ideia galvanizadora protagonizada por um líder com um escol de suporte e não apenas um chefe com elite no palanque – líder portanto, e não alguém que pareça ser continuadamente número dois de alguém, e com força conforme as «circunstâncias» de que o PSD/Algarve é tradicionalmente refém. Todavia, o PSD/Algarve dificilmente interioriza isto.